Assisti estes dias ao documentário da BBC Escravidão – Uma Investigação Global. A ideia da equipe foi rastrear algumas das práticas de serviço escravo ainda existentes no mundo. Embora tenha sido produzido em 2000, tem o tom de alerta que serve para 2009, e, infelizmente, deve continuar atual pelos próximos anos. Há casos inacreditáveis, como o de uma doméstica aprisionada, em plena Washington, por um diretor do Banco Mundial. Ou então a história de crianças indianas que são raptadas e levadas para fábricas de tapetes. A reportagem acompanha a trajetória do produto e denuncia que são vendidos a peso de ouro nas mais elegantes lojas britânicas. Para tentar coibir este círculo vicioso e trágico, uma ONG criou um selo que é colocado nos tapetes de fábricas que não utilizam trabalho infantil. Comprar apenas os que tenham esta marca seria uma maneira de frustrar o mercado negro indiano, mas pelo que o documentário mostra, os empresários ingleses não fazem questão deste rótulo, pois implica num preço mais elevado.

Mas, do ponto de vista jornalístico, o grande momento do filme é a questão das plantações de cacau na Costa do Marfim. O país é o maior produtor mundial, responsável por 2/5 da matéria-prima que vai virar o chocolate nosso de cada dia. Desta soma, segundo apurado pela reportagem, 90% é fruto de trabalho escravo, com direito a tortura e assassinatos. Mais impressionante que as imagens das costas marcadas por chicotes de um jovem que conseguiu fugir de uma plantação é o seu pedido para que os ocidentais não consumam chocolate. No final, uma conclusão desagradável: nunca na história houve tantos seres humanos trabalhando como escravos quanto hoje. Isso porque a globalização da produção proporcionou às grandes empresas buscar os pontos mais distantes do planeta para produzir pelo menor custo possível. Em países onde a legislação trabalhista inexiste ou não é acompanhada por uma fiscalização eficiente, o capital transnacional faz as suas vítimas sem precisar sujar as mãos de sangue, deixando esta tarefa para os carrascos locais. Não compro tapetes indianos e nem sou um grande fã de chocolate – deixar de consumi-lo não representa um grande sacrifício e ainda beneficia minha dieta -, mas em quantos outros produtos do meu cotidiano não estarão embutidos os chicotes que monitoram o trabalho escravo?
Escrito por Marcelo Parker